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segunda-feira, 2 de março de 2020

Chegada do novo coronavírus desafia o sistema brasileiro de saúde

Biólogos do Instituto Fiocruz manipulam larvas do Aedes aegypti para lançar bactéria que combate o mosquito: experiência no combate a doenças (foto: AFP / Apu Gomes).

Por Bruna Lima e Maria Eduarda cardim

O surgimento de um novo coronavírus e a rápida disseminação mundial preocupam muitos brasileiros, que correm às farmácias para se proteger com máscara e álcool gel e acompanham a evolução dos casos aqui e pelo mundo. Em um país com graves problemas na saúde pública, é natural questionar a capacidade estrutural e técnica do aparato nacional para lidar com a doença, considerada uma epidemia de alto risco pela ONU.

Mas o Brasil, apesar das dificuldades, reúne um repertório considerável de medidas e práticas para resistir aos efeitos de moléstias com potencial pandêmico. A experiência acumulada ao longo de décadas e o sucesso de políticas públicas são a chave do tratamento contra o novo coronavírus, mesmo se tratando de uma mutação que põe em alerta as entidades governamentais de todo o mundo. Lições passadas servem como base, senão como protocolo, para salvar vidas.

No mundo globalizado, as medidas de precaução por parte da população se tornam cada vez mais necessárias na contenção de síndromes respiratórias, incluindo o novo coronavírus. O alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) se intensificou nos últimos dias com a explosão de casos de Covid-19 fora da China, sobretudo após a confirmação de casos da doença no Brasil, primeiro país na América do Sul e em zona tropical a anunciar a presença da Covid. “Este vírus tem potencial pandêmico”, alertou em coletiva à imprensa o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Tedros ressaltou a necessidade de agir rápido, porém “sem temores, medo e pânico” e lembrou que o Brasil tem forte experiência na gestão de riscos, usando como exemplo o combate contra o zika, uma das estratégias que elevou o país a status de referência no debate de cobertura universal. No Índice Global de Segurança em Saúde, divulgado em outubro do ano passado, o Brasil foi avaliado com o melhor preparado da América Latina para lidar com ameaças biológicas. No cenário mundial, ficou em 22º lugar geral. Entre os pontos de destaque, estão a capacidade de detecção das ameaças e a qualidade dos sistemas laboratoriais.

Peça chave para o destaque internacional é o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS). “Foi através da nossa assistência unificada que nos diferenciamos com respostas rápidas e mais importantes que países desenvolvidos. O zika é o grande exemplo. Pesquisadores e vigilância brasileira identificaram a ocorrência de microcefalia como manifestação da doença e reportaram à OMS que, por conta disso, decretou emergência de saúde pública”, exemplifica Julio Croda, diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde.

Croda destaca, ainda, que o Brasil é referência em combate à Chagas — doença descoberta no Brasil há 120 anos — e à febre amarela, o que contribui para colocar o país como referência em doenças tropicais. “Somos os maiores produtores de vacina contra febre amarela“.

Além disso, a resposta epidemiológica e o manejo clínico avançados possibilitam monitorar o vírus e descrever os corredores ecológicos a partir da morte de animais silvestres. “Isso permite predizer a doença de dois a três meses antes da manifestação no ser humano. Foi o que ocorreu recentemente com casos no Paraná e que foi possível realizar um treinamento específico, intensificar a vacinação e equipar as redes com antecedência”, observa o diretor do ministério.

A força das vacinas

Nem sempre o país respondeu com eficácia às ameaças externas. Os primeiros registros no Brasil datam da época colonial, quando os portugueses trouxeram doenças inexistentes ao território nacional. A varíola foi responsável por dizimar boa parte da população indígena e mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo. A moléstia milenar, considerada uma das mais catastróficas, era provocada por um vírus transmitido pelo ar, vindo a ser erradicada somente em 1980.


Foi precisamente o combate à varíola que permitiu à vigilância epidemiológica brasileira dar o primeiro grande salto evolutivo. A medida não foi implementada com facilidade. Em 1904, o governo aprovou uma lei obrigando o uso da vacina contra a doença. A desinformação da população, que temia os efeitos da injeção, provocou uma onda de protestos, culminando na chamada Revolta da Vacina.

A rebelião no Rio de Janeiro foi contida à força, deixando um saldo de 50 mortos e 110 feridos. Somente em 1961 a vacina começou a ser produzida no Brasil e, cinco anos mais tarde, se implementava a primeira grande campanha pela erradicação do vírus.

O principal marco da vacinação brasileira surgiu em 1973, com a criação do Programa Nacional de Imunização (PNI). “A estruturação é responsável pelo combate a doenças como poliomielite, difteria, tuberculose, meningite, tétano, hepatites, sarampo. É um dos melhores calendários mundiais por ser extremamente completo”, detalha o infectologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB) André Bon.

Mesmo com oferta de 45 diferentes imunobiológicos gratuitos, o Brasil tem enfrentado recentes reintrodução e surtos de vírus. “Há uma sistêmica diminuição de cobertura vacinal”, explica Bon. Apesar de haver um pequeno movimento antivacina, as principais causas são a dificuldade de acesso — seja pelo horário de funcionamento dos postos, seja por questões geográficas — e o desinteresse da população.

“Um recente surto de febre amarela está relacionado a essa baixa cobertura. Vindo de fora e formando um corredor de transmissibilidade por municípios de Minas, onde a cobertura chegava a menos de 50%, a doença atingiu o Sudeste”, explica o especialista da UnB.

Outro exemplo claro da diminuição de cobertura vacinal é o retorno do sarampo. O Brasil voltou a ficar em estado de alerta com a doença após perder o certificado da eliminação do sarampo no início de 2019. Para o infectologista do Laboratório Exame, David Urbaez, falhas no sistema de saúde e a falta de consciência da própria população prejudicam as coberturas vacinais. “Quando você tem a doença em atividade, as pessoas veem as consequências dela. Com uma vacina, a taxa de proteção chega acima de 90%, a doença desaparece e a população tem a sensação de que acabou. Isso vai atravessando todos os planejamentos, e os recursos são menos alocados porque não tem mais uma grande demanda”, adverte.

Urbaez alerta para o desserviço causado por grupos contrários a campanhas de vacinação. “Considero isso um crime”, diz. O secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira, admite a dificuldade em atingir o público-alvo. “Temos tido muitas dificuldades em atingir a cobertura vacinal. Levar uma criança para se vacinar não é só um ato de cuidado, é uma obrigação prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente”, reitera.

Saneamento básico

Além da imunização contra doenças de escala global, a atenção ao saneamento básico, à alimentação e à higiene respiratória contribuem na redução de contágios. A falta de atenção a esse conjunto de medidas propiciou, inclusive, uma das mais graves pandemias já registradas no mundo: a gripe espanhola. Em 1918, soldados que voltavam para suas casas após a Primeira Guerra Mundial levaram consigo a variante incomum do vírus Influenza A do subtipo H1N1, que contaminou cerca de 500 milhões de pessoas e matou entre 50 e 100 milhões de vítimas. A gripe ceifou ao menos 35 mil vidas no Brasil, segundo cálculos do Instituto Butantã.

Em relação a moléstias transmitidas pela água ou alimentos contaminados, a construção de redes de saneamento básico contribui para uma prevenção mais eficiente. Exemplos são a leptospirose, hepatite A e febre tifoide. Apesar de existir vacina, a diminuição de casos está relacionada ao tratamento adequado do esgoto e ao bom funcionamento de uma rede pluvial.

Quanto à prevenção contra qualquer síndrome respiratória, incluindo a Covid-19, é importante seguir as práticas recomendadas pelo Ministério da Saúde. Colocar o braço na frente da boca quando tossir ou espirrar, lavar as mãos regularmente, evitar tocar os olhos, nariz e boca em ambientes públicos são atitudes efetivas para bloquear a disseminação de gotículas infectadas.

A diferença na nomenclatura

Surto – É o aumento incomum no número de casos relacionados epidemiologicamente, de surgimento súbito e disseminação localizada em um espaço específico.

Endemia – Significa a presença constante ou prevalência esperada de uma doença ou agente infeccioso dentro de uma área geográfica ou grupo populacional determinados. » Epidemia – Denota a ocorrência de casos de doenças ou outros eventos de saúde com uma incidência maior do que a esperada para uma área geográfica e períodos determinados. » Pandemia – Sinaliza o aparecimento de surtos simultâneos em diversas regiões por todo o mundo.

Com informações do Correio

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