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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Memorial‌ ‌JK:‌ ‌38‌ ‌anos‌ ‌guardando‌ ‌o‌ ‌tesouro‌ ‌da‌ ‌história‌ ‌de‌ ‌Brasília‌

Localizado em um dos pontos mais altos e icônicos da capital, o monumento reúne acervo obrigatório para quem pretende conhecer os bastidores da construção da capital.
Agência Brasília

Aberto em 1981, monumento em homenagem ao presidente que inaugurou Brasília guarda a história por trás da empreitada da capital | Foto: Renato Araújo/Agência Brasília

A estátua que eterniza o aceno de Juscelino Kubitschek à nova capital do Brasil está no topo de um tesouro. Construído em um dos pontos mais altos da metrópole para homenagear o estadista que ousou erguer Brasília no meio do nada, o Memorial JK zela a história por trás da epopeia da cidade que está prestes a completar 60 anos. É com um acervo de relíquias que, nesta quinta-feira (12), o monumento completa 38 anos — mesmo dia em que JK faria 117 anos. Não por acaso, este também é o Dia do Pioneiro. 

O Memorial foi inaugurado oficialmente em 12 de setembro de 1981. Naquele dia, Eurícles Antônio de Oliveira já estava lá. Radicado no interior da Bahia, ele veio de mala e cuia para capital e, em uma agência de empregos no Conic, foi encaminhado para a área de limpeza do monumento. Dali ele nunca mais saiu, nem após aposentadoria. Aos 65 anos, o homem de cabelos já grisalhos faz parte da própria história do local e narra, com propriedade, os detalhes guardados no Memorial. 

Em 5.784 metros quadrados de área construída, o monumento reúne acervo pessoal e político do ex-presidente, fotos que contam detalhes de sua vida e obra, a sala de metas para seu governo, maquetes, vestes, imagens da construção e inauguração da capital e, ainda, uma reconstrução da biblioteca pessoal. Todos os itens, garante Eurícles, são obrigatórios para entender a história por trás da criação de Brasília. O recepcionista Euricles Oliveira é o funcionário mais antigo do Memorial JK. Ele estava lá na inauguração e coleciona histórias de quase quatro décadas no monumento | Foto: Renato Araújo/Agência Brasília

“Ele, filho de caixeiro viajante, saiu do nada, da pobreza. Estudou, correu atrás e chegou onde chegou. É incrível e emocionante. Se hoje é difícil, imagina naquela época?”, questiona o funcionário mais antigo do Memorial JK, que após passar anos como motorista e conviver com três gerações de Kubitscheks, assumiu a função de recepcionista. Ou melhor: de contador de histórias. Ele acredita que o monumento cumpre o papel idealizado por Dona Sarah, viúva de JK: manter viva a memória do marido. 
Carga emocional

As visitas ao local são, muitas vezes, carregadas de emoção. As pessoas choram por vários motivos: por recordar ou conhecer as épocas retratadas no Memorial, por reconhecer parentes nas imagens, por se verem retratadas ali. É o que conta Tamires Alves, 31 anos, que trabalha há meia década no monumento.

É história viva. Chama atenção pela importância, remete ao passado, tem uma riqueza de detalhes impressionanteVânia de Araújo, 58 anos, turista de Belo Horizonte (MG)

Conterrâneas de JK, Isaura de Araújo, 82 anos, e Vânia de Araújo, 58, fizeram questão que o Memorial fosse a primeira parada quando resolveram visitar a capital. Moradoras de Belo Horizonte, mãe e filha se impressionaram com a magnitude do monumento. “É história viva. Chama atenção pela importância, remete ao passado, tem uma riqueza de detalhes impressionante”, valoriza a filha, pedagoga. 

A mãe, por sua vez, volta ao passado com as lembranças que remetem sua infância. “JK foi um grande presidente. Dom Bosco previu Brasília como a capital, no centro do Planalto, e ele conseguiu cumprir a promessa e a profecia”, recorda a idosa. Mineiras como o ex-presidente, Isaura e Vânia Alves de Araújo fizeram questão de tornar o Memorial JK o primeiro ponto de parada na capital | Foto: Renato Araújo/Agência Brasília

O próprio JK recebe os visitantes na Sala de Metas, onde estão reunidos fragmentos da História de Brasília. Ali, um holograma em tamanho real explica o plano para seu governo que culminou na inauguração da nova capital. Também chama a atenção uma pintura feita pelo artista Candido Portinari em 1956 e a coleção de obras do escritor inglês William Shakespeare, presenteada pela Rainha Elizabeth II, que faz morada em sua biblioteca particular. Morada definitiva de JK, câmara mortuária é cercada de obras de arte | Foto: Renato Araújo/Agência Brasília

Talvez o espaço que desperte maior curiosidade – e até medo dos menores – esteja no segundo andar. É a Câmara Mortuária, morada definitiva do estadista que nasceu em 12 de setembro de 1901, na cidade de Diamantina (MG). O túmulo onde JK descansa está no centro de um ambiente com paredes esculpidas por Athos Bulcão e um vitral feito por Marianne Peretti. O espaço recebe luz natural que varia de tom de acordo com a posição do Sol. 

A participação da ex-primeira-dama não é mero adendo. Idealizadora do monumento, sua trajetória também tem destaque. O gabinete de onde ela despachou desde a inauguração tem jardim de inverno feito pelas mãos de Roberto Burle Marx, além de objetos pessoais e fotografias de época. Lado a lado com o marido, a imagem de Dona Sarah se repete no caminho de JK. Ela protagonizou grandes ações de assistência social.
Mobilização nacional

O projeto arquitetônico do Memorial JK foi inaugurado em 1981. Trata-se de uma homenagem de Dona Sarah Kubitschek para manter viva a memória do marido após sua morte, cinco anos antes. Ela fez uma campanha para adquirir um terreno, doado pelo então presidente João Figueiredo em área icônica — onde a primeira missa foi celebrada, em 1957. Também mobilizou todo o país para angariar doações e recursos para a construção. O ato teve apoio de políticos, amigos, familiares e do povo. Canteiro de obras mostra, ao fundo, Torre de TV | Imagem cedida pelo Memorial JK

A obra foi feita em 17 meses, com projeto do arquiteto Oscar Niemeyer. São 120 metros de comprimento, 32 metros de largura e um pedestal de concreto armado de 28 metros de altura, de onde sai uma grande mão em forma de concha e protege a estátua em bronze, feita por Honório Peçanha, de onde JK acena para a cidade. 

Os espelhos d’água, as rampas de acesso, e o verde do gramado e dos jardins emolduram o edifício monumental, todo em mármore branco contrastando com o céu da capital. No jardim, uma escultura de Dona Sarah abraçada ao presidente convida o visitante a conhecer um pouco da história do Brasil. Um pequeno monumento de granito negro reproduz uma das frases do ex-presidente. Às vésperas do aniversário, o local passou por manutenção externa que deixou a fachada com cara de nova. 

Discursos serão publicados 

E no embalo das comemorações do aniversário, cinco anos de discursos de Juscelino Kubitschek serão transformados em livros. A primeira obra, com as falas proferidas em seu primeiro ano de governo, em 1956, será disponibilizada nesta quinta-feira (12), em sessão solene no Senado Federal. Os outros lançamentos estão previstos até 12 de setembro de 2021, quando JK completaria 119 anos.

Ouça o que o presidente disse em alusão à inauguração da cidade, em 1960:

Seis perguntas para Anna Christina Kubitschek:

Como se deu a escolha dos itens que compõem o acervo do Memorial JK?
Quando o Memorial JK foi inaugurado, tínhamos um acervo menor que o atual, com peças apenas coletadas por nossa família. Com o passar dos anos, fomos aumentando ele aos poucos, com a incorporação de novos itens, doados por brasileiros e por amigos, outros obtidos pela nossa equipe. Exemplo disso é o estudo que está ao lado do quadro de Portinari que retrata JK com a faixa presidencial. O nosso saudoso Sérgio Vasconcelos comprou em um leilão e doou ao Memorial. Mas há itens que estão aqui desde o começo e que tem um enorme simbolismo. Caso, por exemplo, da Biblioteca de JK. Ela veio do Rio de Janeiro exatamente como estava montada no apartamento de Copacabana. Outro acervo que também é do início do Memorial é o da sala da minha avó, com seus móveis projetados por Oscar Niemeyer. Mas fui, com o passar dos anos, adicionando os itens, como os vestidos que ela usava, e que fazem imenso sucesso.

Como acontece a conservação dos vestuários expostos? Com que frequência são retirados, limpos, repostos? De que forma acontece a limpeza?
Essa foi uma ideia que tive após visitar o Metropolitan, em Nova York. Lá havia uma exposição temporária do vestuário de Jackeline Kennedy Onassis, e isso me inspirou a trazer a proposta para o memorial JK, pois as pessoas adoravam aquela mostra. Após minha avó falecer, levei esse toque intimista e que todos adoram para o Memorial JK. Tal como todo o acervo, que é cuidado por duas museólogas, todas as peças passam por limpeza e conservação diária, feita por pessoal especializado e usando as técnicas mais modernas de conservação de acervos.

Há mudanças esporádicas nos itens do acervo ou tudo é definitivo?
O acervo está sempre sendo modificado e atualizado, com a incorporação de novas peças e mudanças ocasionadas pelo feedback que o público nos dá. Exemplo disso é a galeria de JK e as personalidades. Era uma exposição temporária que virou definitiva. Assim, muitos outros itens foram atualizados e aumentados. Isso sem falar da necessidade de modernizar sempre o espaço. No início, não tínhamos, por exemplo, o elevador para pessoas com deficiência, que hoje proporciona mais conforto a todos os visitantes. Há dois anos, fizemos o grande projeto de digitalização e de plena acessibilidade. É uma renovação constante.

Qual é a história da pintura feita por Candido Portinari a JK em 1956?
Esta peça está, desde o início, no acervo do Memorial. Trata-se de uma pintura a óleo feita em 1960, com 1,99m de altura por 99cm de largura. Ele a pintou auxiliado por fotos, fazendo uma composição nos tons escuros de preto, terras e verdes e nos tons ocres, amarelo e branco. Os dois sempre foram muito amigos. E JK era um amante das artes, especialmente do modernismo. Tanto é assim que, em 1944, quando era prefeito de Belo Horizonte, promoveu a Mostra de Arte Moderna na cidade. Foi Portinari que, naquele mesmo ano, indicou Guignard para montar o curso de pintura e desenho, embrião da futura Escola de Belas-Artes de Belo Horizonte.

Quais os principais desafios de gerenciar o Memorial JK? Passados 38 anos, como é o trabalho para manter viva a memória do seu avô?
É gratificante. Às vezes, vou ao limite das minhas energias, pela característica que tenho de administrar planejando o futuro – os planos para 2020, por exemplo, terminei em maio deste ano. Também sou perfeccionista e detalhista, o que faz com que eu viva 24 horas pensando em como gerenciar o Memorial para ser mais dinâmico, acessível e confortável – e isso em conjunto com a vida que nós, mulheres, temos, repleta de compromissos… Mas meu foco principal é justamente gerenciar a memória do meu avô, tentando sempre antever problemas, estabelecer metas e gerar resultados.

Qual é o planejamento para levar toda essa história às novas gerações?
O Brasil vive um momento único e sensível, em que sentimos a falta da moderação e da conciliação que JK sabia propor. Então, decidimos resgatar suas falas mais importantes como presidente da República. Nesta quinta-feira (12), que marca o 117° aniversário de nascimento do meu avô, vamos lançar, em conjunto com o Senado Federal, o primeiro de uma série de cinco livros com os seus discursos. Este documento histórico estará acessível a toda a população e poderá influenciar e ajudar os políticos e as novas gerações. Até porque iremos doar estes livros, e não vender, facilitando o acesso popular a tantas reflexões profundas, que só ele soube propor ao país.

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