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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Negros do DF têm menos empregos e salário pior; crise aprofundou abismo

Mulheres negras são ainda mais penalizadas; ‘dupla discriminação’, diz pesquisadora. Negras recebem 48,3% do salário de um homem branco; governo vê empreendedorismo como saída.

Por Mateus Rodrigues, G1 DF

Cartilha com informações sobre a carteira de trabalho, em imagem de arquivo (Foto: GloboNews/Reprodução)

Trabalhadores negros do Distrito Federal ocupam funções menos privilegiadas, correm maior risco de perder o emprego e recebem, em média, 60% do salário pago a um não negro. O abismo econômico resultante do preconceito e da diferença de oportunidades se agravou com a crise recente, diz boletim divulgado pelo Dieese neste mês.

O levantamento se baseou em dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego, feita mensalmente pela entidade em parceria com a Secretaria de Trabalho, a Codeplan e a fundação Seade. Segundo as tabelas, entre 2015 e 2016, o desemprego "explodiu" para a população como um todo, passando de 13,6% para 17,4%.

Entre negros, a porcentagem de desemprego passou de 14,2% para 18,1%, e entre os não negros, de 12,1% para 15,7%. Isso significa que a crise afetou todas as raças, mas foi mais severa para os trabalhadores negros. A diferença de empregabilidade entre os grupos, que era de 2,1 pontos percentuais, passou para 2,4 no período analisado.

O quadro interrompe um ciclo de políticas públicas de redução da desigualdade, e praticamente devolve o DF aos níveis de 2012, quando a diferença em pontos percentuais era de 2,6 (veja gráfico).
Desemprego entre 2015 e 2016 no DF, por raça
Dados mostram que diferença chegou a cair entre 2012 e 2015, mas voltou a cre scer
Anos12,712,714,214,218,118,110,110,112,112,115,715,7NegrosNão negros2012201520168101214161820
Fonte: Sistema PED-DF (Dieese, Fundação Seade, Codeplan e Secretaria de Trabalho do DF)

Segundo a coordenadora da pesquisa pelo Dieese, Adalgiza Lara Amaral, os dados revelam impactos diferentes nas duas populações, como reflexos distintos da crise econômica.

Entre brancos e asiáticos (amarelos), o desemprego bateu na porta de trabalhadores altamente qualificados. Entre os negros, a baixa em setores como a construção civil e o trabalho doméstico teve maior impacto.

"Em 2015 e 2016, o mercado de trabalho foi muito afetado pela crise. No Brasil como um todo, a população negra foi mais penalizada. Como Brasília tem uma característica singular, de serviços mais qualificados, essa população de não brancos também perdeu muitos empregos. Cargos altos, com salários enormes, que até então tinham uma estabilidade muito grande", diz.

A informalidade e os jovens

Ao G1, Adalgiza explicou algumas nuances que não estão visíveis nos números gerais, mas saltam aos olhos na análise de outros índices.

Do lado da população negra, o crescimento real do desemprego foi mascarado pela adesão dos trabalhadores à informalidade. Já entre os não negros, o número de pessoas desempregadas foi "inflado" pela inclusão de jovens que passaram a procurar trabalho.

"Após uma demissão, a população negra ia para a informalidade [no período pesquisado]. O não negro, como era mais qualificado, tinha uma segurança financeira, continuava ali procurando. Então, ela ficava mais tempo contando na estatística como alguém desempregado", diz a pesquisadora.

"Ao mesmo tempo, a população econômica ativa foi muito pressionada por jovens que só estudavam e, com a crise, passaram a procurar emprego. Essas pessoas, em sua grande maioria, são brancas e de boa renda."

Na pesquisa, o Dieese evitou explicitar o tamanho do revés – comparando com décadas anteriores, por exemplo. Ao G1, Adalgiza disse que houve uma tendência nítida de piora em todos os índices pesquisados, incluindo renda média, quantidade de empregos, qualidade da inserção e segurança no cargo.
"Existia uma tendência de melhorar, havia políticas sendo feitas. É claro que todas as ações afirmativas deram resultado, se a gente olha uma série mais longa. Agora, com essa recessão, tudo isso freia. A gente sabe que, além do fator econômico, ainda existe preconceito com a aparência, em vagas que lidam com público, com atendimento."

A evidência nos salários

O peso da discriminação é ainda mais evidente na comparação da média salarial dos trabalhadores brasilienses, agrupados por raça. Segundo o levantamento, entre 2015 e 2016, mesmo em plena recessão, o rendimento médio do homem não negro cresceu 1,9%, e da mulher não negra, 0,7%.

No mesmo período, e considerando-se o mesmo mercado, trabalhadores negros viram os salários caírem 5,4%, em média. Para as mulheres negras do DF, a remuneração recuou em 2,8%.
Variação média dos salários, entre 2015 e 2016
Pesquisa separou trabalhadores por cor e gênero, para medir impacto da recessão sobre cada grupo
Variação percentual1,91,90,70,7-2,8-2,8-5,4-5,4Homens não negrosMulheres não negrasMulheres negrasHomens negros-6-4-2024
Fonte: Sistema PED-DF (Dieese, Fundação Seade, Codeplan e Secretaria de Trabalho do DF)

Em 2015, a hora de trabalho do empregado negro do DF valia R$ 17,35 – um valor que corresponde a 63,7% dos R$ 27,25 pagos a um trabalhador branco ou asiático, por hora, naquele ano. Em 2016, com o aumento da diferença, o negro passou a receber 60% do salário do trabalhador branco, em média.

"As razões mais evidentes dessa desigualdade residem nas diferentes estruturas ocupacionais em que esses segmentos estão inseridos", diz o relatório.

Como exemplo, cita a participação maior dos negros em empregos de menor salário, como comércio varejista e oficinas automotivas. Enquanto isso, no setor de serviços mais qualificados, a maior presença de brancos eleva a média salarial.

A disparidade se mantém (e se agrava, em alguns recortes) mesmo quando a pesquisa considera brancos, amarelos, pardos e pretos que ocupam o mesmo tipo de emprego. Em 2016, o rendimento médio real por hora dos negros de carteira assinada correspondeu a 75,1% do rendimento dos não negros de carteira assinada.

Entre os autônomos, o rendimento de um negro corresponde a 82,9% do rendimento de um não negro, em média. Na categoria "demais posições", que inclui empregadores, profissionais universitários autônomos e microempreendedores, um negro no DF recebeu, em média, 53,9% do rendimento de um branco ou asiático nesse mesmo grupo.

Trabalhadores da construção civil em obra de prédio no DF (Foto: Tony Winston/Agência Brasília)

Uma questão de gênero

Assim como no gráfico salarial mostrado acima, outros parâmetros medidos pela pesquisa revelam que, além do componente racial, a desigualdade de gênero também é marcante no mercado de trabalho do DF – e que ela também se agravou com a crise econômica.

Em 2016, o desemprego afligia 20% das mulheres negras – um número bem maior que o índice de desemprego de 17,2% das mulheres não negras. Enquanto isso, o desemprego entre homens não negros era grande, mas bem menor: 14,2%.

"Quando você desagrega os dados pela mulher negra, você vê que existe uma dupla discriminação. Ela já tem menor rendimento, maior desemprego, mas tudo isso se intensifica quando ela é negra", diz Adalgiza.

Modelo durante desfile de moda afro, atração deste sábado (19) no Museu da República, em Brasília (Foto: Instituto Cultural Congo Nya/Acervo)

A saída pelo empreendedorismo

Responsável pela formulação de políticas de enfrentamento a esse quadro, o subsecretário de Igualdade Racial do DF, Victor Nunes, diz defender "a emancipação e a autonomia do negro pelo empreendedorismo".

Ao G1, ele listou algumas ações em fase embrionária que podem ajudar na reversão do cenário, mas também acusou o poder público de negligência quanto ao tema.

"Quando você pega o serviço público, em média, os negros entram em vagas com salários menores, em cargos de menor qualificação. O racismo institucional inviabiliza uma série de iniciativas que poderiam gerar um impacto maior", diz.

"Por mais que a gente tente dialogar, muitos gestores entendem que basta uma política universal, que não haveria necessidade disso [ações específicas]. A gente sabe que o negro sofre mais no país, e sofre por ser negro. Não é por ser pobre, como dizem."

Até o momento, a ação do Palácio do Buriti de enfrentamento a essa desigualdade se resume ao programa de empreendedorismo, que promove debates e capacitações para a população negra. A formação inclui estratégias de captação de recursos e elaboração de planos de negócios, além da consolidação de uma "rede de empreendedorismo".

"Muitas vezes, até o empreendedor negro sofre preconceito trabalhando, mesmo sendo dono do estabelecimento. Além disso, pode ser discriminado até na concessão de um empréstimo, ao lidar com o 'sistema' tradicional", diz Nunes.

Segundo o subsecretário, a população negra "sempre foi empreendedora", principalmente no mercado informal. Dados do Ministério do Trabalho citados por ele ao G1 apontam que os setores que mais empregaram durante a recessão "têm 75% de pessoas autodeclaradas negras".

"O empreendedorismo é um refúgio de quem percebe essa discriminação no mercado. Mesmo que seja para ganhar o mesmo valor, eu prefiro trabalhar no que é meu. É uma emancipação, uma autonomia financeira do negro."

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