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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

7 em cada 10 famílias do DF vivem o drama do endividamento

Michael não conseguiu arcar com as despesas do cartão e assumiu outra dívida: precisou recorrer a um empréstimo. Foto: Angelo Miguel

“O salário entra e sai da conta quase todo para pagar dívidas. No meu caso, o problema foi o cartão de crédito. Virou uma bola de neve. Passei pela mesma situação duas vezes na vida. É de tirar o sono”. O depoimento é do assistente administrativo Michael Ferreira Carvalho, 24 anos, mas poderia ser de boa parte dos brasilienses. Depois de cinco meses , a quantidade de endividados no DF voltou a crescer. Em apenas 30 dias, foram 5,7 mil famílias a mais na lista de devedores.

O número passou de 720.006 em julho para 725.722 em agosto, segundo Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio-DF). Na prática, significa dizer que 78,2% da população da capital tem contas a pagar.

No caso do assistente administrativo Michael, pegar um empréstimo com juros mais baixos foi a última saída. “Somando com o cartão da minha esposa, a fatura veio R$ 4 mil uma vez. Recentemente, tive de recorrer ao banco, ou seja, assumir outro compromisso para pagar a dívida. Fiquei uns três meses sofrendo até tomar a decisão do empréstimo. A última vez que passei por isso era bem mais novo”, lembra.

Ele ressalta a importância de não acumular prestações. “Chega uma hora em que o 13ª salário, as férias e até o abono não conseguem quitar o problema. Desta vez, assumo que foi descontrole pessoal. Normalmente, sou mais precavido e evito passar por esse transtorno”, conclui.Angelo Miguel

Na mesma situação está a auxiliar de serviços gerais Valcira de Oliveira, 49. Ela, entretanto, coloca a culpa na crise econômica do País. “Há pouco tempo, minha filha e meu genro perderam o emprego e eu tive que deixar de pagar minhas contas para ajudar nas despesas deles. Acredito que o desemprego seja o principal fator para o endividamento das pessoas”, afirma.

Valcira assume que, atualmente, coleciona dívidas diversas. “Cartão de crédito, parcelas de lojas de roupa e até as prestações do carro estou devendo. Está tudo acumulado e, por enquanto, vai ficar assim. O valor chega a quase R$ 10 mil. Para mim, o mais importante é não faltar comida na mesa. Tenho nove netos para ajudar”, explica.

A auxiliar de serviços gerais ressalta ainda a insegurança da população. “Eu mesma tinha certeza que ia ser demitida, ia haver um corte no quadro de funcionários. Minha sorte foi que trocou a empresa e estou com a vaga garantida. Antes disso, estava desesperada, sem dormir todas as noites. Não existe nada pior do que ver seu próprio nome sujo”, acrescenta.

Difícil zerar a fatura

A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) foi realizada com uma amostra de 600 famílias. Dentre as que estão com contas em atraso, 64,3% disseram ter condições de quitar suas dívidas parcialmente, 29,3% afirmaram que podem quitar totalmente e 2,7% dos brasilienses disseram não ter condições de quitar as contas.

Ponto de vista

Para o economista César Bergo, o endividamento do brasilense tem explicação: “O desemprego aumentou, a renda do trabalhar caiu, não vemos investimentos por parte do governo e as taxas de juros estão cada dia mais elevadas. As pessoas estão sem alternativas”. Além disso, o especialista destaca a crise na construção civil. “Somos muito dependentes deste setor e o financiamento não está ajudando”, afirma. Como solução, Bergo lista uma série de atitudes a serem adotadas pelos inadimplentes: “O 13º salário deverá ser usado para quitar as dívidas e não para consumo. Além disso, vale a pena reduzir drasticamente o que pode ser cortado dentro de casa e colocar à venda o que não tem mais utilidade. Por fim, aconselho pedir ajuda aos familiares em casos mais extremos. Pagar o valor das prestações para alguém de confiança pode ser vantajoso para os dois lados”.

O cartão de crédito continua o maior causador de dívidas da população do DF: 90,9% se declararam comprometidas nesta modalidade.

Para o vigilante Antônio Márcio Ribeiro dos Santos, 29 anos, quem não tem contas em atraso faz parte de uma minoria.

“Eu mesmo passei a tesoura nos cartões de crédito, cortei os dois ao meio depois que tive de pegar R$ 5 mil emprestado no banco para quitá- los. Também cortei as saídas aos fins de semana. Deixei o lazer para depois que eu me restabelecer financeiramente. Se eu não tomasse uma medida drástica, ia parar no fundo do poço”, comenta.

Segundo o presidente da Fecomércio-DF, Adelmir Santana, os brasilienses seguem com receio de consumir e utilizar o crédito. “As famílias estão cautelosas com o cartão de crédito e a maioria ainda tenta quitar suas dívidas de meses passados, renegociando ou até parcelando as faturas, comprometendo mais ainda a renda”, explica.

Ele ressalta alguns cuidados. “Se souber utilizar, o cartão é uma excelente opção. Caso contrário, se torna um vilão. É preciso ter em mente que ele é uma moeda, ou seja, precisa ser pago de maneira integral”, alerta.

De acordo com ele, no entanto, a tendência é de mudança. “O mercado de trabalho continua desaquecido e talvez não apresente recuperação nos próximos meses. Neste cenário, a expectativa é de que haja queda no número de endividados nos próximos meses”, completa.

Isso porque, destaca Adelmir, os brasilienses têm poder aquisitivo expressivo. “Em quase toda família tem sempre um servidor público, ou seja, alguém com mais segurança e, consequentemente, maior poder de endividamento. Apesar de estarmos falando de todos os tipos de dívidas, no geral, são prestações a longo prazo. Investimentos em imóveis e bens”, conclui.

Manuela Rolim
manuela.rolim@jornaldebrasilia.com.br

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